Saturday, March 6, 2010

Whatever Works


"Ahh.. get the hell out of here, in America they have summer camps for everything. Rich kids, basketball camps, magic camps, tennis camps, movie director camp. They should have a concentration camp! Two weeks mandatory for all kids growing up, so they could understand what human race is capable of."

Excerto do filme Whatever Works de Woody Allen.

Muito bom, vejam.

Detalhes..zecos


Existe uma paranóia colectiva em Portugal com detalhes; isto não constituiria um problema se esses detalhes fossem relevantes. Existe até uma conhecida expressão, Deus está nos detalhes (alguns dizem que se deve dizer que é o Diabo, fica à sua consideração), aludindo à importância das partes que formam um todo. Naturalmente, algumas partes são importantes e devem ser discutidas, outra não são importantes e podem também ser discutidas, mas no devido tempo e nos devidos locais, sob pena de não se falar sobre o que é importante.

Há vários exemplos do que é a subversão deste princípio: José Sócrates sempre que vai em visita oficial ao estrangeiro faz jogging de manhã. A notícia, independentemente do veículo que é utilizado para a transmitir, fá-lo de uma forma jocosa. Não entendo, sinceramente, qual é o problema do homem se pôr a correr e incentivar as pessoas a praticarem exercício físico. É um detalhe que pode ser discutido, contudo, no devido tempo e nos locais apropriados (revistas cor-de-rosa por exemplo).

Hoje mesmo saiu o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC). Do pouco que vi, serão reduzidos alguns benefícios fiscais, aumentarão os impostos para a banca e ao que parece, teremos de novo privatizações. Que importância foi dada no primeiro minuto? O facto do governo recorrer a uma multinacional de relações pública para melhor conduzir o processo de apresentação do programa. Temos que reduzir o défice a ferro e fogo e o que ouço na televisão é uma KG qualquer coisa que calendarizou a data de apresentação do PEC. Mais um detalhe.

Ainda sobre detalhes, estes de incoerência: no último post, critiquei aqueles que na Função Pública protestam na rua e depois votam nas mesmas caras (a troco de aumentos salariais irresponsáveis) a quem meses antes apelidaram de ladrões. Hoje no Público, vejo que um investigador, Luís de Sousa, apresentou um estudo onde se conclui que 63% da população portuguesa tolera a corrupção desde que daí resultem efeitos benéficos para o bem geral. Se quase dois terços da população acha que ser corrupto em determinadas circunstâncias não tem problema nenhum, que moral têm para criticar os políticos? Mais, se toda esta gente pensa assim, a probabilidade de termos decisores a pensar da mesma maneira é altíssima, que conduz inevitavelmente aos episódios que vamos presenciando.

A qualidade da classe política depende em larga escala da pressão que a sociedade consegue exercer sobre ela. Neste capítulo, temos falhado redondamente. Enquanto a classe política compreender que não existem consequências para as suas práticas lesivas e que a maior parte da população vive num estado de alienação permanente, pouco ou nenhum esforço farão para mudar. Eles próprios, e o País.

Friday, March 5, 2010

Merecer?


Ciranda por aí uma ideia, a partir da qual se pretende legislar, no sentido de punir as familías que não acompanham devidamente a educação dos seus filhos, nomeadamente o seu desempenho, comportamento e conduta escolar.

Isto leva-me a pensar no estado em que vivemos e como é que aqui se chegou. Para algo acontecer existe sempre mais do que um motivo, contudo - e normalmente - um motivo será mais preponderante e mais saliente do que outros. Nos últimos trinta anos, o poder político foi transmitindo de uma forma errada à população quais eram os seus direitos e quais eram os seus deveres.

Mal no caso dos direitos, porque uma grande franja da população está convencida de que tem direitos, significando isto, que devem lutar por esses pretensos direitos, ultrapassando tudo e todos e levando até ás últimas consequências aquilo que se apelida de luta. Um exemplo recente: ontem mesmo, tivemos uma greve geral da função pública, por melhores condições e melhores salários. Precisamos de reduzir o défice para 3% até 2013, ou seja, dez mil milhões de euros por ano. O argumento dos cidadãos plenos de direitos, é que se deve ir aos bolsos dos ladrões resgatar esse dinheiro. Estes mesmos injustiçados cidadãos, em época de eleições, votam nos tais ladrões, porque sabem que eles cedem em caso de protesto. És ladrão, mas se me deres o que eu quero, eu tolero-te.

Relativamente aos deveres, o trabalho feito é bem pior que no caso dos direitos, apesar de estar com eles relacionado: como o cidadão tem direitos inalienáveis e fechados a sete chaves num cofre, os seus deveres por sua vez, não passam de uma figura escrita em papel. E melhor, a maior parte dos nossos maus comportamentos podem ter o Estado como culpado: contraímos seis créditos e temos a vida virada do avesso. O Estado deve proteger melhor os consumidores. Temos um acidente de automóvel, o arranjo do carro são 3.000 euros. A culpa é nossa e o seguro não paga. O Estado deve proteger melhor os consumidores. Bem sei que o sector da banca e dos seguros são tudo menos vítimas, mas também não torcem o braço a ninguém para vender um cartão de crédito ou um seguro de vida. Chegamos então ao assunto inicial, as escolas. Existe uma ideia generalizada, que é responsabilidade das escolas educar os filhos dos outros e certificarem-se que passam de ano. Os pais, nos últimos anos, foram demitidos de educar os seus filhos. Chegou-se mesmo ao estranho tempo - este - em que as repreensões a alunos podem resultar em agressões (dos pais!) aos professores.

O caminho para um país diferente passa naturalmente por melhores políticos. Contudo, só os conseguimos obter formando pessoas melhores. Um passo - inevitável - é a atribuição de culpas e responsabilização do nosso estado actual, não exclusivamente aos outros, mas também e serenamente, a nós próprios.

Tuesday, March 2, 2010

Random Sentences

O nosso esforço, apesar de hercúleo, pode não ser suficiente para alterar a crónica e irreparável estupidez de algumas pessoas.

Sunday, February 28, 2010

Nós não somos a regra

Um conceito aparentemente simples, o facto de um caso único - seja qual for o assunto - não servir para tirar conclusões de absolutamente nada, é constantemente distorcido, sinceramente, nem sei bem porque razões. Reparei contundo, que é uma prática habitual e disseminada pela sociedade.

O caso mais habitual, e que tem explicação é o do tabaco. Sabemos todos, sem excepção, que fumar aumenta a probabilidade de vivermos menos tempo, com menos qualidade ou com doenças potencialmente perigosas. Ainda assim, muitos fumadores em conversa recordam sempre o velhinho de noventa anos que fumou a vida toda e morreu com noventa anos. Não é preciso ser físico nuclear para entender que o velhinho que conhecemos não representa uma amostra significativa. Contudo, as pessoas que ficam sem pulmão e que fumavam, tal como as que têm cancro de pulmão e fumavam, existem num número suficientemente grande, para que se possa formar uma correlação a esse respeito e chegar a uma conclusão. De qualquer maneira, este fenómeno é explicado pela psicologia, através da teoria da dissonância cognitiva: o fumador sabe que fumar faz mal, contudo, continua a fumar, o que o leva a um estado de tensão. Para diminuir essa tensão, adiciona factos à equação que desvalorizam o facto de fumar fazer mal, neste caso, o velhinho que fumou a vida toda e sobreviveu.

Noutro plano, onde os exemplos são vastos, não há dissonância cognitiva que salve o comum mortal da pseudo-inferência que habita tantas mentes: o cinto de segurança por exemplo. Muitas pessoas morreram porque usavam cinto de segurança. Muitas morreram porque não usavam cinto de segurança. Para lá da lei (que nos obriga a usar cinto de segurança), moralmente, devemos ou não usar cinto de segurança? A estatística fornece-nos a resposta: usar cinto de segurança, reduz a probabilidade de morte e/ou ferimentos em caso de embate. Porque é que ainda ouço tanta gente a relativizar a importância do uso do cinto de segurança? Não sei.

Random Sentences

Envelhecemos quando começamos a prestar demasiada atenção ao boletim meteorológico.

Tuesday, February 23, 2010

Rigor


Existe uma variação considerável no que à compreensão e tradução da palavra rigor diz respeito; aparentemente, a incompreensão aumenta à medida que vamos descendo do hemisfério norte para o hemisfério sul, onde naturalmente, em certa altura da viagem, Portugal se encontra.

Esta incompreensão, para além de gerar os habituais atrasos, complicações e touradas, cria dentro dos elementos que compõem a sociedade - nós todos - uma relativa condescendência perante determinados fenómenos. Há vários exemplos.

Porque é que a velocidade limite nas auto-estradas é 120? Porque não 118, ou 110 ou 140?
Porque é que para um aluno ter positiva, normalmente, tem que ter 10 valores (numa escala de 0 a 20) e não 12, ou 9, ou 14, ou 6?
Porque é que para termos acesso ao nível mais alto - Gold - de um programa de milhas de uma companhia aérea, necessitamos de ter percorrido 70.000 milhas em 12 meses consecutivos?

A resposta reside na mesma razão de fundo, apesar das motivações serem diferentes de caso para caso: porque depois de se considerar os prós e os contras, decidiu-se que aquele valor era o mais sensato para definir como regra. Simples.

Nós, entre outros povos - nisto não somos únicos - consideramo-nos individualmente o expoente máximo da inteligência. Como tal, auto-determinamos que o limite de velocidade de 120km/h é uma parvoíce e aceleramos como se não houvesse amanhã. Um aluno que teve 9,4 valores de avaliação final, foi chumbado com 9 e como tal o professor é um crápula sem sentimentos. Tal como se percorrermos 69.500 milhas num ano, os ladrões da companhia aérea por umas míseras 500 milhas não atribuiram o estatuto Gold. Está tudo contra nós, a vida é uma merda e o mundo está virado do avesso (leiam a história deste simpático mundo há apenas 100 anos e verão o que era viver do avesso).

A falta de rigor, por si só penalizadora, conduziu a sociedade a um estado permanente de vilanização de todos os agentes que cumprem as regras. Inclusive, e no nosso caso em particular, entre a enxurrada patética de desculpas empregues para justificar o constante desmazelo, destaca-se provavelmente a mais descabida, o Estado Novo, enterrado há mais de trinta anos, mas ainda assim útil, para criticar todos os que optam pelo rigor.