Tuesday, December 15, 2009

Open Mind


Ter uma mente aberta é um exercício de elevada complexidade e determinação. Numa primeira observação, ou percepção se quiserem, ter a mente aberta é aceitar as diferenças dos outros. Entendem-se neste plano, as coisas mais básicas e que a nossa simpática e compreensível sociedade teve a amabilidade de nos ensinar: aceitar o facto de algumas pessoas não terem a mesma cor de pele que nós e por esse motivo não as discriminar. O mesmo se aplica a pessoas com deficiências, emigrantes e por aí fora (em resumo, as minorias). A nossa condescendência com estas minorias vai aumentando de acordo com o passar do tempo, ou seja, quanto maior é o nosso nível de convivência e habituação com um dado grupo, maior será a nossa aceitação perante o mesmo (lembre-se da reacção há uns anos, que a maior parte das pessoas tinha, quando via dois homens de mão dada).

E se aceitarmos tudo isto, temos a tal.. open mind? Afinal de contas, somos um motor da sociedade! Não. Somos tolerantes, que é diferente de ter uma mente aberta. Carregamos intrinsecamente toneladas de preconceito connosco. Quantas vezes avaliámos uma pessoa pela roupa que veste? Pelos acessórios que tem no carro? Pela música que ouve? Pelo penteado? Por ser gordo? A precipitação dos nossos julgamentos superficiais são precisamente a origem da falta de tolerância. Mais, quando formamos uma percepção superficial sobre alguém ou alguma coisa, de imediato formamos crenças que suportem esta percepção. Um maluco para ser maluco, consegue sempre apresentar razões para o ser.

Viver sem preconceito é utópico, ter a mente aberta é possível, implicando contudo, um exercício diário, passível de se tornar, digamos, inquietante. A expressão separar águas não fica neste caso, muito longe do seu sentido estritamente literal.

Sunday, December 13, 2009

Cartas Soltas - Medo do escuro


A morte tenta marcar consulta num psicólogo, para deixar de ter medo no escuro.

"Senhor Doutor,

Pretendo com esta carta antes de mais, sensibilizá-lo para a realidade que me prende e atormenta numa voraz vontade de viver a vida como outro conceito qualquer. A sociedade em que o doutor se insere, foi a que mais se desenvolveu na compreensão de fenómenos tortuosos. Diga-se de passagem, que foi também, a que mais se esforçou para os desenvolver e aplicar. De qualquer forma, esta introdução serve para explicar que o meu pedido vai no sentido de lhe mostrar que falo verdade e que não se trata de nenhuma brincadeira. Até à data, nenhum dos seus colegas acreditou nas minhas sinceras palavras. E deste problema doutor, tenho que me livrar.

Ora, por estranho que pareça, eu, a morte, tenho medo do escuro. Bem sei, que à luz de todas as percepções que a sociedade tem de mim, isto é no mínimo, um paradoxo. Mas eu não tenho culpa que me associem a uma coisa má. Eu não sou boa nem má. Nem vou buscar ninguém de barco. Nem tão pouco peguei numa foice na vida. Mesmo que uma coisa desses existisse, imagine a sujeira que não seria, levar as pessoas para o outro lado, ceifadas como se diz. Bem sei que é uma metáfora, mas mesmo assim, é um exagero de todo o tamanho. Portanto, como qualquer outra coisa que habita este mundo, tenho os meus medos e as minhas incertezas. O escuro é uma delas, e segundo percebo, é possível através dos vossos estudos, compreender este medo e fazer com que ele desapareça. Só peço um pouco mais de qualidade de vida. Já sei o que é que está a pensar. A morte a pedir qualidade de vida. É um paradoxo, bem sei. Mas se eu existo, estou viva. Compreende o meu drama? Estar vivo, não é o contrário de estar morto no meu caso. Aí tem doutor, uma coisa para pensar, vocês que tanto gostam de reflectir sobre tudo e mais alguma coisa. Eu, na minha simples existência, só quero perder este medo. Pensando bem e voltando atrás, se calhar estar morto é o contrário de existir, faz mais sentido. Assim podem incluir-me nestas vossas tiradas pitorescas.

Tendo tudo em conta, compreenda o meu sufoco, e guarde meia-hora do seu dia para mim. Bem sei que me dedicará uma eternidade daqui a uns anos, mas por agora, preciso só de meia-horinha durante umas semanas.

Certa da sua sensibilidade, aguardo notícias suas. De uma forma ou de outra, falaremos um dia (isto não foi uma ameaça doutor, a vida é mesmo assim, ou melhor, a morte é mesmo assim.. bom, como quiser, só não quero ferir a sua sensibilidade).

Cumprimentos,
A Morte"

Thursday, December 10, 2009

Sentidos


Formulamos certezas de forma intrínseca. As certezas que temos trazem-nos segurança. Aparente, porque muitas certezas têm na sua essência outro significado qualquer; lá porque temos a certeza não quer dizer que estejamos certos. Quantos de nós, chegaram a uma qualquer fase da vida, e como que desabando uma montanha sobre nós perguntamos: "Mas afinal o que é que eu sei?"

Chegar a esta fase, apesar do sentimento desagradável que é sentir a pesada estaca zero, deve ser uma vitória. Acabamos por, intrinsecamente de novo, tentar construir uma nova rede de crenças, desta feita com mais cautela, mais precaução, mais inseguros e de início com um pouco menos de fé. Mas inicia-se um novo ciclo, com menos erros espera-se, a esperança diz o povo, o resto já sabem.

A partir daqui os caminhos divergem: errar é humano, duas vezes é animal. E por aí fora. E errar duas ou mais vezes pode ser mais do que emoção. Pode ser de novo, o desejo súbito da certeza e a serenidade aparente que a mesma traz. Viver constantemente em questão é algo trabalhoso. O sentido que as coisas tornam, o rumo que nos decide e a certeza do que será, são uma periclitante equação, com resultados sempre diferentes. A cada minuto. E a hora, a hora em que desistimos da questão, quando a resposta é para sempre, é desistir, para sempre também, daquilo que queremos. Entregar-nos, não é o mesmo que nos mandarmos de cabeça. O que é que se perde com tanta ponderação? E o que é que se ganha com tanto ímpeto? Tudo e nada. Não há respostas certas. E é esta premissa que nos tortura e que nos leva a tirar, as tais conclusões precipitadas. Quantas vezes ouviu "Não tires conclusões precipitadas", quer o tipo dizer, que podes cair do precipício e lá vão as certezas todas embora. Ninguém gosta de ouvir disto. O fantasma da estaca zero. Quantas vezes é preciso voltar ao zero? Mais uma pergunta por responder. E como é que se vive assim? Para esta a resposta é simples: não se pensando nisso. E termino com este paradoxo, pensar demais aflige, pensar de menos leva ao erro. E agora?

Monday, December 7, 2009

Copenhaga


O aquecimento global será sem dúvida um dos grandes temas deste século. Sinceramente, não sou propriamente um activista da causa, apesar de reconhecer a seriedade e gravidade do fenómeno. Já hoje, se sente em muitas partes do globo, fenómenos climáticos extremos e com consequências graves (uma ilha com cerca de 300 habitantes e que se estima que irá desaparecer por causa da subida do nível das águas, já firmou um acordo com a Austrália para alojar a sua população quando o inevitável acontecer).

Basicamente, os países que mais emitem CO2 (como é o caso da China e EUA), não podem de uma hora para a outra, reduzir as suas emissões para os níveis pretendidos pelos ambientalistas. É muito interessante ser a favor de menos emissões, mas sabe muito bem, ter todo o conforto ocidental à porta de casa (que implica emissão de CO2). Segundo dados recentes, o território da França tem capacidade para produzir alimentos para um máximo de 650.000 pessoas (não recorrendo a qualquer tipo de indústria e consequentemente à não emissão de gases de efeito de estufa). A população estimada do país é de 64,4 milhões de pessoas.

Apesar de acreditarmos nas consequências graves que os cientistas nos apresentam, não conseguimos imaginar-nos num mundo com fenómenos extremos a cada três dias, fome, destruição, secas extremas, falta de alimentos, migrações e o diabo a sete. Uma catástrofe bíblica resumindo. Alguém consegue imaginar isto? Claro que não. Portanto, o esforço e vontade para a redução necessária das emissões de CO2, ficarão circunscritos a pequenos actos (que têm o seu valor), insuficientes para dar a volta à coisa.

Soluções? 27.000 conferencistas em Copenhaga a partir de hoje. Vamos ver.

Sunday, December 6, 2009

Carta de Reclamação - A Morte


A morte, indignada, escreve uma carta a organizações religiosas, reclamando sobre a percepção que tem sido transmitida às populações sobre si própria.

"Boa tarde,

O vosso esforço por me evitar é no mínimo, divertido. A tradição judaica ensinou-vos, nos últimos 3.000 anos, que existe vida para além da morte. Pouco me importa. Querem achar que são eternos, força. Porque não? Até compreendo. Atravessam uma vida louca, cheia de obstáculos, sensações, emoções, tristezas, alegrias e tremoços. A micronésima parte que vocês representam no universo não passa disso mesmo, mas entendo, que sendo uma experiência para vocês tão complexa e atribulada, não possa acabar assim, sem mais nem menos.

Durante muito tempo, a vossa famigerada instituição, tranquilizou milhões de almas perdidas. Se havia vida depois da morte, nada havia a temer. E se querem a minha opinião, naqueles tempos, mais valia estar morto que estar vivo. Mas tudo mudou. Lentamente, mas mudou. As vossas miseráveis vidas, tornaram-se ligeiramente menos miseráveis em alguns sítios. Os vossos corpos duram agora muito mais tempo, e os cavalheiros das batas brancas vivem numa luta desbravada para adiar a bendita hora. Os únicos que admiro, sinceramente, são os que escolhem viver. A maior parte de vós, não entende, o que é pensar em mim e sentir alívio. Quando a ideia de partir se torna agradável, ficar aí, significa qualquer coisa. Divirto-me também com toda a literatura que vocês desenvolveram ao longo dos anos e o medo de mim, tornou-se de tal forma gritante, que até já diagnosticam pessoas com a tal da hipocondria, que sim, em última análise, é medo também de morrer.

Aquilo que pretendo, de uma vez por todas, é que se transmita a minha importância enquanto parte de um ciclo natural; o vosso mundo tem um fim. Tudo começa e acaba. Eu sou um simples símbolo de determinados fins. Não tem que ser uma alegria, nem uma tristeza. É o que é. Um fim. Tratem das vossas massas como eu trato do meu poder: com muito cuidado. Descobrirão, mais rápido do que pensam, que não devem ter medo da verdade. A bem, ou a mal.

Despeço-me, não para sempre claro."

Wednesday, December 2, 2009

Pictures inside my head


De acordo com o Público de hoje, todos os dias há um bebé português que vai nascer a Espanha. São estes os pequenos (para já) sinais da nossa debilidade económica. Maternidades encerraram, obviamente, porque era necessário reduzir o défice. A falta de dinheiro para manter as estruturas básicas do país (e uma maternidade é uma estrutura básica) tem uma consequência, igualmente, básica: se a organização Estado não tem capacidade de assegurar serviços básicos, outras organizações o farão, neste caso, o Estado espanhol.

À medida que nos vamos endividando mais e mais, a nossa cotação internacional vai descendo e a nossa capacidade de contrair crédito é cada vez menor. Menos crédito significa dinheiro mais caro para quem dele precisa para investir. Nada é catastrófico, porque em matéria política, tudo é volátil. Contudo, se continuarmos a optar pela esquizofrenia das obras inúteis, as organizações, leia-se, os Estados com acesso a dinheiro mais barato, tomarão o seu lugar nas nossas instituições, deslocalizando os centros de decisão para algures na Europa.

Se acham a tirada rebuscada, o que dizer de recentes comentários do governo espanhol, insinuando a necessidade de consertar posições entre Portugal e Espanha relativamente a matérias de decisão no âmbito da UE? Pequenos passos, nada inocentes. Vivemos numa época sem fronteiras, onde a soberania de cada país, de capital depende. Todos os que dependem do Estado para viver, mais cedo ou mais tarde, compreenderão (à força provavelmente) que as benesses intermináveis de que gozam conhecerão um fim amargo.

Tuesday, December 1, 2009

Random Sentences

A intranquilidade do relativismo, deve ser tudo, menos um susto para a nossa calma.