Monday, May 9, 2011

Cantas bem mas não me alegras

Na nossa sociedade, existe uma tendência generalizada, para valorizar aspectos relacionados com a personalidade do indivíduo. A boa disposição, a determinação, o espírito de iniciativa e até o aspecto exterior (roupa, traços faciais etc..) são determinantes na forma como a imagem de alguém é percepcionada pelo comum dos mortais.

Como sabemos, o nosso primeiro ministro demissionário, cumpre todos estes requisitos: é simptico, afável, tem uma excelente capacidade oratória, é determinado e emana absoluta confiança relativamente às suas opiniões e convicções.

Infelizmente, não conseguimos pagar as nossas contas, nem melhorar a nossa condição, dizendo que temos um primeiro ministro à prova de bala. Só o conseguimos fazer se o dito responsável, conseguir que o país cresça ao ritmo dos seus parceiros europeus.

Ultimamente, e muito por causa das eleições que se avizinham e também pela intervenção a nível financeiro que o país sofreu, tenho falado com muitas pessoas sobre a matéria. Acho curiosíssimo, que se continue a engalanar o primeiro ministro demissionário e inclusive a considerá-lo, como uma boa opção para o próximo governo. Repare, não estou a dizer para votar PSD, CDS, BE ou PCP. A minha perplexidade centra-se na ideia de ver Sócrates novamente no governo. Vou tentar explicar a razão do meu espanto.

Ponto 1: Portugal teve que recorrer a uma intervenção conjunta do FMI (Fundo Monetário Internacional) e da UE (União Europeia). Nenhum país do mundo, repito, nenhum, recorre a uma solução destas a não ser que seja absolutamente necessário. Fá-lo porque não tem como continuar a honrar os seus compromissos e só com dinheiro vindo do exterior pode continuar a fazê-lo.

Ponto 2: Não se pode atribuir à crise financeira de 2007/2008, o pedido de ajuda que agora foi feito. Muito menos às agências de rating. Enquanto que é verdade que essa crise trouxe efeitos nefastos à economia mundial, não quer dizer que o mundo inteiro tenha recorrido a ajuda financeira. Na Europa, só a Grécia e a Irlanda fizeram o mesmo, e no mundo inteiro, só a Islândia teve problemas a sério (declarando bancarrota). O governo demissionário centrou muito a questão da necessidade do pedido de ajuda no chumbo do PEC4 e na especulação efectuada a partir das agências de rating. Convém entender para que é que servem as agências de rating: um investidor baseia-se na notação dada por estas agências para efectuar os seus investimentos, seja numa área específica, seja num banco, numa petrolífera, ou na compra de divída de um país. A notação de Portugal foi descendo ao longo do tempo porque os investidores foram acreditando de forma cada vez mais premente, que mais cedo ou mais tarde, Portugal não ia conseguir cumprir com as suas obrigações. Não acredita? Pois bem: Portugal não cresce a mais de 2% desde o ano 2000. Sabemos que o nível mínimo de crescimento para gerar emprego e fazer face a responsabilidades típicas de um estado social, é de 3%. O nível de endividamento de Portugal está perto dos 100% do PIB, ou seja, para toda a riqueza que produzimos, pedimos o mesmo valor ao exterior para pagar contas. O défice do estado, nestes 10 anos, ficou apenas duas vezes abaixo dos 3% e entrámos também duas vezes em recessão técnica. Ao mesmo tempo, a despesa foi aumentando até aos actuais 48% do produto. Fazendo uma analogia simples, vamos considerar o exemplo de uma mercearia. Se o senhor da merceria não aumenta as suas vendas, a cada ano que passa é sobrecarregado com mais responsabilidades e as suas despesas aumentam, só lhe restam duas hipóteses: ou fecha a porta, ou pede um financiamento para continuar com ela aberta. De início, quando o senhor vai ao banco, o primeiro empréstimo é efectuado. Mas o tempo passa, e esgotado esse crédito, o senhor da mercearia pede o segundo crédito. Questionado pelo banco, sobre o crescimento das vendas, ele responde que continua tudo na mesma. Questionado depois sobre a despesa ele diz que as mesmas aumentaram por várias razões. Questionado por último sobre as perspectivas de crescimento, ele diz que as coisas hão-de melhorar e que precisa mesmo deste dinheiro para fazer uma remodelação na loja e tentar chamar mais clientes. O banco acha que é uma boa ideia e empresta o dinheiro ao senhor da loja. Mas como tem mais risco e as perspectivas de sucesso são relativamente fracas,cobra-lhe um juro mais alto. Como o senhor da mercearia quer muito continuar com o seu querido negócio, não tem outra alternativa senão aceitar. Contudo, a situação permanece igual dois anos depois. Vai de novo ao banco e explica a situação novamente. O senhor do banco explica-lhe que não tem condições para lhe emprestar mais dinheiro porque claramente, gastando mais do que aquilo que consegue vender, provavelmente, o senhor da mercearia não vai conseguir pagar o dinheiro que o banco lhe emprestou. Sem alternativas, o senhor fecha o negócio. Foi isto que aconteceu com Portugal: os nossos credores deixaram de acreditar que conseguiriamos honrar os nossos compromissos. Porque não conseguimos crescer, porque aumentamos a despesa de forma violenta (48% do PIB), porque nos endividamos de forma severa (100% do PIB) e porque o plano que temos implica ainda mais despesa. Esta história das apostas em infraestrutura já não é utilizada por nenhum país desenvolvido. Foi feito no período pós-guerra porque era necessário reconstruir países. A aposta agora é em indústria forte capaz de exportar bens transacionáveis e na exploração de recursos que permitam fazer o mesmo e aumentar a independência do país a vários níveis (alimentar, energético, etc..). A cantilena do PEC4 e das agências de rating servem apenas para maquilhar a verdade: ficámos sem dinheiro, porque não produzimos riqueza suficiente. É importante lembrar: a riqueza só pode ser redistribuida se for produzida. Plain and simple!

É importante - independentemente da decisão que tomar nas próximas eleições - deixar de lado características de personalidade dos intervenientes políticos e levar em linha de conta, o que é que pode colocar o país a crescer. Não existe outra maneira. A aposta em infraestruturas dos últimos dez anos tiveram um retorno miserável, não podemos continuar a apostar no mesmo, sob pena de termos um problema de contas públicas crónico.

Sobre o fantasma estado social: o PS normalmente intitula-se como o grande guardião do estado social. A questão é esta e desculpe se me volto a repetir. O estado social só funciona se for financiado. É importante então, perceber como é que esse financiamento será feito (até à data tem sido com impostos e financiamento exterior através da emissão de dívida). Nas circunstâncias actuais e sem dinheiro, aquilo a que vamos assistir é a uma deteriorição progressiva do mesmo. O dinheiro não vem do ar!

Wednesday, March 16, 2011

Tudo na mesma

Este é o argumento principal que vai marcar as próximas eleições; não é razão de somenos, já que nos últimos anos, os principais partidos que partilharam o poder (PS e PSD), pouco fizeram para que a alteração do paradigma vigente de emprobecimento generalizado (sim, empobrecimento, todos os indicadores apontam no mesmo sentido) se fizesse notar e as pessoas caíram numa resignação que redunda em frases como "Muda a merda, só o cheiro é que é diferente."

Ainda assim, convém reter o seguinte: a culpa não é inteiramente de quem está no poder. Em primeiro lugar, e por um motivo 'La Palissiano', porque é o povo quem coloca os políticos no poder. Ninguém lhes torce o braço para se sentarem na cadeira de primeiro-ministro. Segundo, ninguém está preparado para a verdade. Assim sendo, nenhum político consegue ganhar eleições dizendo tudo o que vai realmente fazer, tal como o senhor do banco que nos vende um cartão de crédito ou um seguro, não consegue vender os últimos se detalhar ao pormenor todas as despesas relacionadas com os mesmos. Dizem então os políticos - de uma forma generalizada - aquilo que as pessoas querem ouvir.

E o que é que se quer ouvir em Portugal?

Para vos poupar tempo de leitura, resumirei a vontade auditiva do povo português à seguinte frase: "Se algo correr mal, estará cá alguém para me ajudar". Esse alguém como é evidente, é o Estado. Em caso de doença, desemprego ou baixo rendimento, o Estado tem previstos, uma série de mecanismos que visam a correcção dessas dificuldades. Nada contra. O Estado Social, é na minha opinião, um dos grandes saltos civilizacionais que o mundo desenvolvido soube dar. De qualquer forma, e com a recente crise económica global, a pergunta surge, quais são os seus limites?

Todo o mundo desenvolvido sem excepção, aponta como forma de sair da crise alguns factores comuns: flexibilização do mercado de trabalho, incentivo à exportação, qualificação de mão-de-obra, equilíbrio das contas públicas, e presença mínima do Estado no mercado.

Se analisarmos item por item o trabalho que Portugal desenvolveu nas matérias atrás descritas, veremos rapidamente, e de acordo com os números que se encontram disponíveis, que foi deveras execrável, para não dizer pior.

Flexibilização do mercado de trabalho: Portugal vive num paradoxo estranho, onde se cruzam práticas de flexibilização extremas como os recibos verdes e os contratos de trabalho temporário, com práticas extremamente rígidas, onde um conflito entre entidade empregadora e um funcionário com contrato a termo incerto se torna rapidamente numa caixa de Pandora. O povo português como se sabe, opõe-se de forma veemente a qualquer legislação que vise a flexibilização das relações do trabalho. Não compreende decerto, que um dos motivos que leva muitos empresários a não fazer novas contratações ou a fazê-las nas condições miseráveis que os recibos verdes impõem por natureza, são precisamente, as dificuldades que os vinculos laborais actuais trazem num horizonte de médio/longo prazo. Aquilo que os últimos governos têm feito, é tentar alterar pormenores da legislação relativa ao trabalho a partir da função pública. Como a dimensão das estruturas sindicais é assinalável e têm pelos vistos, poder de negociação suficiente para fazer algumas coisas voltarem ao ponto em que estavam (um bom exemplo de que afinal, nem sempre são os políticos a não mudar nada), qualquer tentativa de se mudar o que quer que seja no plano laboral, revela-se infrutífera, quer pela força dos sindicatos, quer pelo medo generalizado da população em perder direitos.

Incentivo à exportação: nos últimos anos, o nível de exportações tem aumentado de forma considerável. É um trabalho que deve continuar a ser feito e que merece aplausos. Contudo, em termos de volume e diversidade deixa algo a desejar (se assim não fosse, o crescimento do PIB dos últimos dez anos teria conhecido outros valores). No momento actual em que vivemos, não conseguimos ser produtivamente mais baratos que a Ásia ou o Leste da Europa. Como tal, devemos apostar tudo na diferenciação. É assim que conseguimos exportar vinho ou cortiça por exemplo. A forma de lá chegar é através de uma forte componente tecnológica, acompanhada de uma visão empresarial dînâmica. Estes dois vectores, conduzem-nos ao próximo ponto, a qualificação da mão-de-obra.

Qualificação da mão-de-obra: Portugal, actualmente, é dos países da OCDE, com um investimento per capita em educação digno de registo. Contudo, os resultados obtidos são manifestamente insuficientes. Nos testes PISA, que visam aferir os conhecimentos dos alunos em cada país, os alunos portugueses, ficam invariavelmente a léguas dos seus colegas europeus. Quer isto dizer, que despejar dinheiro em escolas não chega. Os especialistas apontam como factor preponderante para o sucesso escolar, o envolvimento da família no processo de aprendizagem do aluno. Mas como o Estado, desde há muitos anos para cá, transmitiu a ideia de que por magia, conseguiria resolver - virtualmente - todos os problemas da população, uma grande fatia do povo português julgou que deixar as crianças à porta da escola seria o suficiente para uns anos depois, as mesmas se licenciarem. Errado. Mas o Estado não pára. E para corrigir este défice de estudo, criou o programa "Novas Oportunidades". Este programa tem como objectivo dar oportunidade àqueles que não conseguiram chegar longe nos estudos, completar agora um ciclo inteiro (9º ou 12º ano) num período temporal reduzido, cerca de dois anos no máximo. Como deve calcular, não se consegue aprender em dois anos o que se devia ter aprendido em doze, e como tal, em vez de se preparem as pessoas para a realidade, estamos a fazer um investimento em quadros de excel para enviar à OCDE e ao Eurostat.

Equilíbrio das contas públicas: este é sem dúvida, o ponto em que o Estado, pelos mais diversos motivos, tem falhado de forma gritante. O Pacto de Estabilidade previsto pela União Europeia, prevê um défice máximo de 3% e um endividamento público na ordem dos 60%. Portugal como sabe, nunca conseguiu cumprir de forma satisfatória estes valores. Nas alturas em que o conseguiu fazer (sempre de forma temporária), foi à pala de aumento da receita, ou seja, aumentado vigorosamente os impostos (lembra-se ainda do IVA a 17%? Parece uma coisa com décadas). A população de uma forma geral, vive alheada, de forma absoluta, desta problemática. Dá igual que o défice seja de 3, 6, 19 ou 1500%. É indiferente. Não para todos, mas para uma grande maioria é. Tivemos até um Presidente da República que disse com pompa e circunstância que "Há vida para além do défice". O grande problema que se coloca é este: para ganhar eleições e manter os níveis de popularidade em alta, os políticos prometem mais e mais apoios à população. Por outro lado, para manter o nível de oferta política dos últimos anos, os governos recorrem invariavelemente a orçamentos de estado restritivos, que por sua vez, estrangulam ainda mais a economia. Mais Estado, significa mais despesa. No dia que a generalidade das pessoas interiorizar esta ideia, as contas do País estarão em ordem.

Presença mínima do Estado: ora, este ponto é também de certa forma, um paradoxo. Portugal, curiosamente, de forma oficial, é um dos países do mundo desenvolvido, que menos participações tem no mundo privado. Por outro lado, as que tem, são significativas e correspondem elas também a injustiças tremendas a nível concorrencial, já para não falar na promiscuidade resultante dessa presença indesejável. A forma que o mundo desenvolvido encontrou para retirar o Estado da economia sem que o interesse geral fosse prejudicado, foi através dos reguladores. Em Portugal como sabe, os reguladores são sobejamente conhecidos pela sua ineficácia. O Banco de Portugal não conseguiu compreender a tempo o que se passava no BPN e no BPP. A Autoridade da Concorrência afirma de forma clara e objectiva que não existe concertação de preços no sector dos combustíveis. Nem de próposito, há semanas atrás viajava de carro na autoestrada com a minha filha; a dada altura, e avistando um daqueles quadros que nos dizem o preço da gasolina nas próximas bombas, perguntou-me ela de forma inocente: "Oh pai.. porque é que aqueles números são todos iguais?" Não me restou muito, senão rir-me. A Anacom, no sector das telecomunicações, defende de forma intrasigente os interesses da maior tecnológica portuguesa. É interessante verificar que depois de todos estes anos sobre a liberalização deste mercado, se continuem a verificar as mesmas quotas de mercado para a mesma operadora. E finalizamos com a ERSE, a entidade que regula a comunicação social, e que é alvo, de tempos em tempos, de chacota pura, quer a nível nacional quer a nível internacional.

O meu conselho sincero, não é para votar neste ou naquele partido, mas para perceber antes de mais duas coisas: pedir mais ao Estado significa ficar mais pobre. O dinheiro não vem do ar, vem dos impostos que nós pagamos. Sempre que o Estado disser que vai fazer um "investimento" fuja a sete pés e nem se atreva a olhar para trás.
A outra questão é uma simples evidência: pergunte a si próprio, se há dez anos atrás, a vida que tinha imaginado para si hoje era esta? Não acha que poderia ser melhor? Muito melhor até? Enquanto que em muitos casos a culpa é também nossa, em muitos outros a culpa é de facto do Estado. A ideia de que tudo ficará na mesma, é o simples prolongar de uma situação que se tornará, mais cedo ou mais tarde, insustentável.

Saturday, March 5, 2011

De volta

Olá,

Estive uns meses sem "bloggar" como já devem ter reparado (último post é de Setembro de 2010). Espero começar a escrever de novo com mais regularidade.

Desde que escrevi a última vez neste espaço, muito aconteceu mundo fora: Wikileaks, uma eleição presidencial (se é que se pode designar por eleição um evento com tanta abstenção), convulsões no mundo árabe e por aí fora.

Mas outras coisas não mudaram.

Os nossos políticos continuam na sua senda maquiavélica. Continuamos a pagar juros altíssimos sempre que pedimos dinheiro emprestado e pior, a desconfiança dos mercados (a juntar a alguma especulação) nem com a entrada do FMI parece ficar resolvida, veja-se o caso da Irlanda, que mesmo depois da intervenção financeira, continua a braços com juros altíssimos sempre que precisa de vender dívida.

Ao governo vigente - o de Sócrates - não restam muitos mais caminhos do que aqueles que até agora tem percorrido: consolidação das contas públicas - reduzindo o défice, o endividamento e a despesa - e aumento das exportações. O problema é que quem investe em dívida já ouve esta cantilena há muitos anos, e os resultados em termos de crescimento estão aí: não se cresce a mais de 2% há 11 anos. O PSD por sua vez, não consegue seduzir o eleitorado. Numa sondagem publicada ontem, um empate técnico entre laranjas e rosas ditava a vontade do povo. Nem com o pacote de medidas de austeridade mais severo dos últimos vinte anos, consegue o PSD alavancar a sua preferência junto dos eleitores. A estratégia também não me parece ser a melhor: Passos Coelho é profundamente liberal (no passado defendeu a privatização da CGD e mais recentemente uma alteração constitucional que permitisse flexibilizar os despedimentos). Contudo, não vivemos junto de um eleitorado liberal, pelo contrário, vivemos junto de um eleitorado que quer Estado, Estado, Estado. Como tal, qualquer discurso que implique menos Estado nunca será bem visto. Escolheu então Passos Coelho a seguinte estratégia: esperar que as sondagens mudem de vento, fazer uma moção de censura (que será certamente aprovada), ganhar as eleições subsequentes (provavelmente com maioria relativa coligando-se por sua vez com o CDS) e chamar o FMI ou outra coisa parecida. Sabe Passos, que com o dinheiro dessa instituição vêem as alterações há muito reclamadas por Bruxelas e outros que tais: flexibilização das leis laborais e privatização total de algumas empresas (fim de goldenshares está incluído no pacote), entre outros. Sabe também Passos, que desta forma consegue explicar melhor junto da opinião pública algumas medidas que venham a ser tomadas. Sabe igualmente, que o PS enquanto oposição não se vai opor às mesmas, porque entende que são necessárias, não teve foi nunca, coragem de as tomar, em nome dos ideais de Abril.

Neste plano de voos só há dois aspectos que estão a complicar as contas a Passos: Sócrates em primeiro lugar que já acenou nos primeiros dois meses do ano com redução da despesa, e que num jantar com Merkel já prometeu 4.6% de défice para 2011. E as sondagens como referi, que neste momento conseguem prever tanto um candidato vitorioso para as próximas eleições, como eu consigo saber os números do Euromilhões da próxima semana.

O futuro, é de facto, incerto.

Tuesday, September 21, 2010

Redes sociais - a utopia


O Facebook permite-nos ser deuses na terra.

Em primeiro lugar podemos lá colocar as nossas melhores fotografias; desta forma nunca verão a nossa pior cara ou a nossa pior pose. A não ser que queiramos. Podemos entre o vasto número de fotos que uma máquina digital permite registar, colocar na rede o melhor de nós.

Controlamos também aquilo que dizemos, se é que temos algo de interessante para dizer. Caso não haja grande coisa para dizer podemos ter uma ligação com outras pessoas ou organizações que normalmente dizem coisas interessantes. Sem percebermos um peido do que quer que seja é possível assim, passarmos por 'connaisseurs' de uma dada matéria, partilhando aquilo que os outros dizem. É a artimanha perfeita: somos uns porreiros por partilhar com os outros coisas à maneira.

O mesmo para a música por exemplo. Vamos ouvindo isto e aquilo na rádio. Se virmos uma determinada música sendo colocada por vários 'amigos' deduzimos facilmente que a música é popular. Se lá a colocarmos também decerto não faremos má figura.

Os amigos. Coisa que por ali não falta. Enquanto que na vida real quando vemos alguém e temos vontade de ir ter com aquela pessoa e falar com ela provavelmente não o fazemos, enquanto que na rede, um simples clique inicia uma pequena relação. Fortuita e patética provavelmente, mas não deixa de ser uma relação. E não é assim tão difícil chegar a umas boas centenas destes ditos amigos. Daquela maralha, falamos de forma regular com umas sete ou oito pessoas, e de vez em quando com umas vinte ou trinta. Podemos portanto, ser populares sem o sermos. É digno de registo.

É um conceito idêntico ao dos centros comerciais: não existe crime, controlamos todos os nossos passos e podemos sempre com um simples clique afastar aquilo que é indesejável. Aqui ainda existe outra vantagem: não se gasta dinheiro no processo. A vida não é assim e estas fugas da realidade só tornarão a última mais pesada quando com ela nos confrontamos.

Monday, September 20, 2010

The 'Fuck Vintage' Manifesto


First let’s talk about the vintage concept. It flies somewhere along these lines: we are out of new ideas. Mankind has produced more information in the last thirty years than in the last five thousand one's. You see, it's really a big number of ideas. As so, disruption is very very hard to achieve. So what we in the vintage industry thought about: lets recover all that shit that went out of fashion twenty, thirty or in some cases forty years ago, and sell it one hundred and fifty times the price those things were valued back then. How are we going to do this? Let’s start with the young adults first. They really want to be different - it's human nature - so let’s explore that innate feeling. They are already used to pay a quarter of their salary for a t-shirt, so let's rumble up the thing and make it half a salary t-shirts. Same goes for furniture, glasses, shoes, cars, bicycles, cigarettes, drinks, music and all that you can actually think of. They'll think they are really offstream despite the fact they're using shit their grandparents used to wear in a normal weekday. We're good at this point. But I think it would be rather much more interesting to take it to another level. So trough advertising we managed to position this concept into some sort of intellectual thing. With it, we are actually helping the bookstore industry for example: they're selling Camus, Kafka and Dostoyevsky like if there is no tomorrow. Even dogs are called Kafka so you can have a fucking idea. Same goes with the watch business for example: the old ugly Casio is selling like shit again. With this kind of positioning we are saying that being vintage is not for everyone. So it’s a commercial paradox: a product that was mainstream and affordable is now offstream and expensive. And as stupid it may seem explained this way it’s working millions of bucks for our vintage bank accounts.

My toughts on this: when this sort of vintage I'm so intelectual I can't look at you properly people stare at you, just tell them there's a whole real world awaiting for them. Reality isn't based on wearing accessories that were mainstream decades ago and are now exclusive to big bang wallet owners. By the way, most of them are now on their 30's and are still living with their parents along with their Ancient Literature degree which only useful purpose I can remember, is too wipe your ass with it. Also, they will bang your head with stupid theories that are nothing but nonsense and that were already dissected somewhere in the past, but hey, they're reading the oldies and forgot to read the stuff that actually sent those dumbass theories to outer space. So basically, vintage is fucking vintage.

One thing is look to the past and watch yourself on funny clothes because everyone else was wearing it. Another is too making it on purpose just to be different and say to you in the morning: I'm offstream. What the fuck? So this is why you're going to be remembered: a person who wears clothes from another time era, who picked old books and furniture from the street garbage and spent their night weekends in some pseudo sitting bar listening tunes from your mother's afternoon disco revenge parties.

Amusing uh? Anyways, we are already rich at this point, so enjoy your butterfly king lifestyle while we go to the mainstream Bahamas islands and drink our mainstream Margueritas along with the mainstream two hundred dollars an hour prostitutes.

Monday, August 23, 2010

A Revolta Incapaz


Nos últimos tempos, tendo em conta a conjuntura internacional, as altas esferas financeiras deste pesaroso mundo, acharam por bem pressionar os governos um pouco por todo o lado no sentido de reduzirem os défices orçamentais.

Faz lembrar aquelas pequenas montanhas russas em U: aquando da falência do Lehman Brothers todos os economistas em conjunto defenderam a intervenção imediata do Estado sobre a economia para não se repetir o descalabro da Grande Depressão. Injectando milhares de milhões de euros/dólares nas respectivas economias, os défices inevitavelmente, dispararam. Agora, os mesmos economistas alertam para o endividamento excessivo dos Estados e exigem medidas draconianas para que se aperte o famoso cinto. Em Portugal, estas medidas foram celebrizadas pelo famoso PEC que nos trouxe como o leitor decerto já ouviu falar (e sentiu), uma miríade de aumentos nas deduções fiscais, apertando assim um pouco mais, o nosso mundialmente conhecido poder de compra e rendimento disponível.

Bela análise. Agora sendo honesto comigo mesmo, para que serve realmente esta análise? Para nada. Fico a conhecer a situação e mais nada. É assim que procede a generalidade da população: conhece os temas (muitos conhecem-nos apenas superficialmente e disparam em todas as direcções) e não consegue fazer mais do que suspirar as suas eternas queixas. Os intelectuais do nosso tempo por sua vez, em longas linhas e palavras descrevem de forma erudita a precária situação que o País atravessa, contudo, é raríssimo o colunista/jornalista que propõe uma alternativa.

Aquilo que resolverá o nosso problema é a apresentação de soluções e alternativas. A simples e patética constatação do que se vai passando irá levar-nos a lado nenhum. Não me espanta a popularidade do professor Marcelo: em 15 minutos fornece uma opinião passível de ser reproduzida pelos seus fiéis seguidores sem que para tal se faça qualquer esforço. É ouvir o programa e reproduzir uma qualquer bardinarice no café mais próximo.

Quando assim acontece, e estão aí os livros de História para o provar, o primeiro altifalante a gritar mais emprego, mais saúde e mais equidade, eventualmente, ganha a corrida. Ninguém quer saber como é que lá se chega, querem é ouvir aquilo e mais nada. Talvez isto explique o porquê de sermos um dos países europeus que continua obstinadamente a garantir cerca de 20% de votos à extrema-esquerda a cada quatro anos.

A tua alternativa então chico-esperto, pensa o leitor neste momento. É justo, aqui vai então:

- Redução significativa da despesa do Estado; é preciso compreender e interiorizar de uma vez por todas que tudo o que é "oferecido" pelo Estado será pago pelos contribuintes. Mais impostos significa menos dinheiro no bolso para o cidadão anónimo e mais encargos para as empresas que desta forma não conseguem ter tanto capital disponível e consequentemente geram também menos emprego. É preferível haver mais emprego ou subsidíos de desemprego para todos e mais alguns?

- Ciclos legislativos mais longos: o actual ciclo de 4 anos conduz invariavelmente a que só se governe verdadeiramente durante dois anos e meio no máximo.

- Responsabilização criminal para as decisões políticas que lesam manifestamente os interesses do País

- Reformulação completa do conceito de educação através das famílias e não do Estado: continuo hoje em dia a ter discussões insalubres com pessoas que juram até à morte não valer a pena tirar um curso superior. Há pelo menos 20 anos, estudos em todos os países desenvolvidos, comprovam que quanto maior é o nível de escolaridade, menor é a probabilidade de ficar sem emprego e maiores são as probabilidades de auferir um salário maior do que aqueles que não têm um curso. Contudo, precisam de ser as famílias a transmitir esta ideia às novas gerações, enquanto se discutir patetices deste tamanho, não saímos do nível mais básico de compreensão

E haveria mais para dizer, não vos quero cansar mais. Próximos capítulos em breve.

Tuesday, August 3, 2010

O Fundamentalismo


Dizia um opinador há meses atrás, que o fundamentalismo era o grande problema do nosso tempo. Eu vou mais longe, digo que é e foi o problema de todos os tempos. A conotação que abrange este conceito está tradicionalemente associada a movimentos religiosos e políticos, contudo, e em muitas vertentes, vai muito além das grandes questões que dividem os homens.

As convicções que o fundamentalismo consigo traz, já nos presentearam com guerras, matanças e outras simpatias que a Humanidade se lembrou de criar.

Num primeiro plano - mais abstracto - alguém que não seja fundamentalista não é levado a sério. Ensinam-nos de certa forma, que devemos defender as nossas convicções e opiniões; qualquer pessoa concorda com isto, as nossas opiniões devem ser defendidas com veemência. Será? É exactamente este fenómeno de clausura cerebral que conduz ao fundamentalismo bacoco. Para nós estarmos certos relativamente a uma convicção (e sublinhe-se, uma convicção não é uma verdade absoluta, como um mais um ser dois) alguém tem de estar errado. É a partir desta fricção que resultam os mais hediondos comportamentos que o Homem consegue apresentar.

É assim, porque de outra forma, uma pessoa que não seja "convicta", é acusada de ser incoerente, sem ideias, contraditória e por aí fora. O que será de um sujeito que defende por exemplo, a dinâmica do liberalismo e a importância do Estado Social? A crise de 2007 curiosamente trouxe para a praça este interessante fenómeno: governos de direita conduzindo os países pela faixa da esquerda. A culpa das circunstâncias assim o ditou e até à data, nenhum governo caiu por assim proceder.

Não será mais sensato deixar um espaço (pequeno que seja) para aceitar outros pontos de vista sem perder a essência dos valores em que acreditamos? É mais difícil viver assim é um facto, vivemos mais desasossegados neste estado permanente de nos questionarmos se estamos certos ou errados, mas não deixa de ser uma forma mais tolerante e mais salutar de viver e que conduz a mais diálogo e a menos fricção.

Um exemplo contemporâneo daquilo a que chamo o micro-fundamentalismo. É frequente entre as diferentes tribos sociais, discriminar aqueles que não fazem parte do dito grupo com base em argumentações serôdias, como a música que determinada pessoa ouve, a roupa que alguém veste ou o local onde faz férias. Assume-se de forma peremptória, que aquela pessoa não deve ser boa pessoa, ou que não nos identificamos com ela e não merece o nosso tempo porque traz consigo vestida, uma blusa encarnada e um lenço azul e vai de férias para Málaga. Sim, por vezes, é estúpido a este ponto, ainda assim, acontece com frequência.

Fazendo a transposição para os nossos profundos valores, como a existência de um Deus ou um sistema político, temos o caldo montado para a construção de uma sociedade patética.

Enquanto fomos capazes de evoluir no sentido do conforto, fomos incapazes de identificar a estereotipação do indivíduo como um dos grandes males da sociedade.